sábado, 19 de novembro de 2011

ALERTA ESTUDO EDITADO EM LIVRO Cuidadores de idosos sem formação nas ilhas


Publicado no Sábado, dia 19 de Novembro de 2011

O livro “Formação para a Prestação de Cuidados a Pessoas Idosas”, da mestre em Gerontologia Social Aplicada, Maria Manuela Sousa, alerta para a falta de formação e de condições laborais dos trabalhadores que lidam com idosos, em particular na ilha Terceira, mas generalizada às restantes ilhas. Uma preocupação que passa a estar impressa em livro que, com o apoio da Misericórdia de Angra, é apresentado no próximo dia 23 de Novembro.
O livro assenta no estudo de mestrado de Maria Manuela Sousa, socióloga da Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo, que em “Formação para a Prestação de Cuidados a Pessoas Idosas”, analisa cientificamente um campo “manifestamente pouco explorado pela comunidade científica em gerontologia no nosso país”.
A autora explica que a sua investigação, sob supervisão da Universidade Católica Portuguesa, fez uma análise das necessidades “apercebidas pelos próprios actores”, através de uma investigação feita em 27 instituições que institucionalizam idosos e/ou os apoiam domiciliariamente, 21 no continente e seis na ilha Terceira, através de 253 inquérito feitos aos seus trabalhadores.
Ao jornal “a União”, Maria Manuela Sousa refere que este é um livro que gostava que fosse lido sobretudo por dois tipos de intervenientes na matéria: “decisores políticos” e “dirigentes de instituições”.
Isto porque, entre as principais conclusões a que chega está o facto desta ser uma “categoria profissional, fundamental para o sistema de cuidados, em que constatamos insuficiente formação, falta de condições de trabalho, o burnout que enfrentam”.

Lei não obriga a formação
Segundo o contrato colectivo de trabalho praticado na Região, o prestador de cuidados desta área tem como sua função “a limpeza e arrumação das instalações, a prestação de cuidados de higiene e conforto dos utentes, o transporte de utentes, o transporte de alimentos e outros artigos, o serviço de refeições em refeitório, o transporte de cadáveres, o tratamento de roupas, a condução de veículos da instituição, a medicação previamente prescrita ao utente, o acompanhamento de idosos em deslocações e outras tarefas não especificadas”, descreve o livro.
O mínimo de 18 anos e a escolaridade obrigatória são os requisitos de acesso à profissão. Depois de admitidos, estes trabalhadores necessitam, por lei, de frequentar um mínimo de 700 horas de formação profissional específica para passarem à última categoria profissional (2.ª, 1.ª principal).
Porém, esta mesma lei, realça a autora, refere que, na impossibilidade das instituições darem formação aos seus recursos humanos, no prazo de três anos, estes obtém o grau máximo.
Resultado: “existem muitos trabalhadores sem formação nenhuma”, conclusão que comprova existir tanto na ilha Terceira, área do estudo, como também, sustenta, é extensível às restantes ilhas.

Trabalhadores querem mais formação
Outra das conclusões que o livro destaca vai para a necessidade de formação mais reclamada pelos prestadores açorianos do que pelos continentais.
Em termos sociais, denota a socióloga existe uma “desvalorização social, dentro e fora das organizações” e “ausência de perspectivas de carreira”.
Apesar de referir que existe uma “diferenciação positiva em razão do mérito”, por outro lado, adianta, há uma “indefinição jurídica de conteúdos funcionais”, além da “inexistência de um código deontológico e carteira profissional”.
Em suma, a mestre lamenta “não existir nenhuma política para uma questão tão fulcral como esta para o séc. XXI”.

Idosos muito idosos
Segundo dados da Comissão Europeia que transpões para o livro, “o número de pessoas no intervalo de idades 65-79 anos aumentará expressivamente após 2010 e até 2030 (+37%). O grupo dos idosos muito idosos, com 80 e mais anos, continuará também a aumentar”.
Assim, a esperança média de vida aumentará “cerca de 57,1% entre 2010 e 2030. Isto significa que em 2030 serão, em valores absolutos, 34,7 milhões os idosos muito idosos que hoje são cerca de 18,8 milhões”. Perante este crescente aumento da chamada “quarta idade”, a socióloga avisa que a “qualidade da prestação dos cuidados depende da qualidade dos cuidadores – uma função que se alicerça na dimensão humana, na relação, na mediação e cujo sucesso é, em tudo, condicionado pelo perfil, competência e formação do seu agente”.
Perante as actuais restrições orçamentais do país e região, Maria Manuela Sousa não esconde preocupações: “o tempo que vivemos não é favorável a um aumento do investimento em formação, ao incremento de um maior grau de exigência em matéria de recrutamento e à valorização diferenciadora dos colaboradores com maiores competências, pelas instituições do sector social”.

“Perigos” no cuidado ao idoso
“Perfilam-se vários perigos, hoje, como a redução expectável das receitas, o aumento dos encargos de funcionamento destas instituições, o aumento do nível de exigência dos clientes”, alerta a socióloga Maria Manuela Sousa acerca do sector da prestação de cuidados a idosos no livro que apresenta, com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Angra a 23 de Novembro, pelas 20H30, na sede da instituição.
Perigos que a estudiosa soma, de forma quantificada, à falta de formação do recursos humanos a ele afectos: “45% dos cuidadores da amostra não possuírem experiência anterior de trabalho com idosos quando entraram na profissão”; “não há praticamente avaliação formal de desempenho”; “cerca de 70% dos cuidadores não receberam formação no ano anterior ao estudo”.
No livro, pode ler-se que os cuidadores de acção directa (terminologia usada no continente) ou os trabalhadores auxiliares de apoio a idosos (na região) acabam por ser uma categoria profissional “insuficientemente qualificada, na qual se tem investido pouco em termos de formação, pouco motivada, numericamente reduzida, envelhecida, profissionalmente instável, submetida a uma excessiva carga de trabalho, pouco acompanhada na fase de integração e aprendizagem da profissão, responsável pelo cuidado directo ao idoso, na qual se registam índices de acidentes no trabalho superiores aos verificados na industria, mal remunerada e sem os benefícios assegurados a trabalhadores de outros sectores de actividade”.
Este é o cenário profissional que, refere o livro “tenderá a agravar-se num contexto caracterizado pelas crescentes solicitações e exigências de uma nova geração de idosos”.

Humberta Augusto
haugusto@auniao.com

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